Apesar de imundo, com escassas roupas, barbas longas o que mais me impressionou foi ver o seu desespero e o seu rosto devastado ao procurar em cada caixote, que para nós é entendido como imundície, uma simples refeição e não a obter. O seu olhar profundo implorando alimento. De tanta gente naquela rua a passar, cada um sentado a ler o seu livro, a ouvir a sua música, a contar episódios hilariantes das suas vidas, a destruir o dinheiro em visitar algo cultural, ninguém reparava no carente ser humano que se arrastava e se entristecia ao ver todo aquele cenário de riqueza e euforia… Até alguém se dirigir a esse ser desconsolado e lhe entregar uma pequena porção de sustento. Os olhos do sujeito brilhavam repletos de lágrimas de gratidão e de júbilo. Aparentava ter ganho o euromilhões. O que para certas pessoas seria algo para desperdiçar e que não fazia sentido algum para ele tornara-se na melhor refeição da semana. Ver aquela extraordinária e invejada alegria fez com que o alguém se sentisse concretizado e completo por dentro depois de tal boa ação feita. A verdade é que por vezes pequenos gestos podem fazer toda a diferença seja qual for a reação do próximo.
Olho mesmo quando tu não reparas. Olho a todo instante. Na verdade, eu nem me canso de te observar, pois quando olho para ti e para mim, olho para nós.
Sinto-me nostálgica quando relembro dos que se foram e de quem não me despedi, nomeadamente daqueles que não tiveram como me dizer adeus.